sexta-feira, 12 de março de 2004

Meu querido Aurélio

Dentre os grandes mistérios da humanidade que assombram minha vã cabecinha e seus habitantes símios, figuram questões como "por que todo mecânico tem o nome no aumentativo?", "por que o Pateta anda ereto e o Pluto não, se ambos são cães?" e "como alguém consegue escrever um dicionário?". Essa última é a mais misteriosa e importante de todas para mim. Porque eu amo esses tijolões recheados de letras, estampadas em folhas fininhas feito seda.

O sêo Aurélio é meu grande amigo desde a infância. Minha mãe tinha um dicionário desses, médio, de capa vermelha e pesado que só o diabo (especialmente para os bracinhos de uma garota que nasceu com quatro quilos e, até hoje, engordou só mais 38). Mas eu não perdia uma oportunidade de folhear aquela bíblia.

Como alguém é capaz de escrever tanta coisa assim, meu Deus? E catalogada (vide os V.t.d, S.f. e Adj. que ficam bem ali, antes da definição), explicada (geralmente com expressões do tipo "ato ou efeito de…" ou "diz-se da…"), classificada (algumas vêm acompanhadas de abreviaturas como Bot. ou Quim., quando são termos dessas ciências) e, muitas vezes, exemplificada (com trechos de obras)?!

E de onde eles tiram as palavras? Ficam anotando em papeizinhos, conforme vão falando com as pessoas no dia-a-dia? Pegam grandes clássicos da literatura e desmembram, palavra a palavra? Depois, pegam uma brochura de Julia ou Sabrina, para acrescentar termos como entumescer (tipo de coisa que só se acha ali)? Quem define o que é palavra e o que não? E se eles blefarem nas definições? Mistééério…

Com essa absoluta admiração por quem organiza, compila e publica dicionários e com a fascinação que nutro pelo grande livro, qual não foi minha alegria quando meu pai chegou em casa, com uma caixa onde se lia "Academia" debaixo do braço, e disse: "toma, é para você. Mais um jogo".

Academia, um dos meus brinquedos favoritos, desafia os jogadores a criar definições para palavras que existem na língua portuguesa, mas que se o sêo Aurélio conhecer já é muito. O objetivo é, senão acertar a definição, convencer o maior número possível de participantes da veracidade da sua definição para a palavra - obviamente inventada.

Me diverti horrores em tardes marcadas por rodadas e rodadas do folguedo, porque sou boa de blefe. Isso quando eu não era rechaçada da mesa de jogo, sob acusação de "ler o dicionário". Só porque eu acertava duas ou três definições das palavrinhas propostas. Sempre neguei essas alegações, mas hoje vou confessar que eu… leio mesmo!

Não que eu leve o livro para cama antes de dormir e comece desde o capítulo "A". Mas sempre que tenho uma consulta a fazer, não consigo deixar de ler as palvras, digamos, vizinhas do meu verbete de dúvida. Fui checar hoje o significado de "melífluo", essa palavra linda de se dizer. E descobri que "melissografia" é uma descrição dos costumes das abelhas, "melomania" é a paixão exagerada pela música e "melilita" é uma pedra de composição complexa, para resumir a ópera.

Fui capturada pela empolgação de descobrir sentido nessas fantásticas reuniões de sílabas abarcadas pelo vernáculo português e continuei a folhear. Descobri que "furrundum" é… Ôpa! Tive uma idéia. Quem quer brincar de Academia põe o mouse aqui – e vota na definição que achar mais convincente para "furrundum". Vamos ver se ainda estou boa de blefe. Mas não vale olhar no dicionário, hein!

Clara McFly às 05:37 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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