quinta-feira, 22 de maio de 2003

A lua é flicts. Mesmo!

Semana passada, assisti ao badalado eclipse lunar sentada numa cadeira de praia no quintal e fazendo malabarismos para tomar, ao mesmo tempo, o chá de capim-cidreira plantado no meu próprio jardim.

O espetáculo me rendeu, além do deslumbramento visual, um baita torcicolo e uma lembrança dos livros que eu lia na infância. Tudo porque um dos que mais me marcaram foi "Flicts", do Ziraldo. Isso não faz sentido? Parece a defesa Chewbacca? Calma, eu chego lá.

O livro conta a história de uma cor bem diferente chamada flicts. O pobrezinho passa o tempo todo procurando um lugar para ocupar, mas as cores tradicionais já estão por todos os cantos e nenhuma quer dar espaço ao diferentão. Ele fica só, até se mudar para a lua. E só quem foi até lá sabe que de perto, bem pertinho, a lua é flicts.

Era uma história de final feliz, mas flicts amargava tanta solidão e rejeição até encontrar seu exótico destino que eu entrei em profunda depressão da primeira vez que li. Chorava escondida e tudo. E disfarcei a lagriminha no canto do olho por muitas releituras depois.

Pois e não é que, quando a sombra tomou a lua e o eclipse chegou ao auge, eu vi que a lua é flicts mesmo? Fiquei bege (com o perdão do trocadilho de cores)! Pelo menos, parecia com a cor do livro grande e fininho da minha infância, ou ao menos com a memória que eu tenho dela.

Foi quando me lembrei de oito livros que fizeram minha infância e pré-adolescência mais felizes e, arrisco dizer, tornaram-me uma pessoa melhor. Alguns ainda são editados, outros sumiram no limbo. Mas vale procurar em qualquer sebo, feira, buraco ou estante do vizinho para encontrar.

Os quatro primeiros figuram bem reluzentes na lista aí embaixo. Os quatro derradeiros, mais pré-aborre, ops!, adolescentes, ficam para amanhã.

Bolsas mágicas, ferrugens coloridas e outros mundos de brochuras

"A Bolsa Amarela", Lygia Bojunga Nunes
Uma garota chamada Raquel quer ser escritora. Nem precisava mais para me conquistar, mas a autora foi além: Raquel ganha uma bolsa mágica, onde vivem dois galos malucos – um deles com o pensamento costurado –, um alfinete-bebê que fala (ou melhor, risca na palma da mão) o que pensa e outros objetos bacanas.

Além disso, é na bolsa que minha heroína esconde suas três vontades (a de crescer, a de ser menino e a de ser escritora), que sempre que desatam a crescer o fazem fisicamente, feito balões, e acabam envergonhando-a. Delicioso, cheio de símbolos e lições de moral sem o menor traço de pieguice. Ainda está em catálogo pela Ediouro. Viva!

"Bisa Bia, Bisa Bel", Ana Maria Machado
Uma garota encontra um retrato bem antigo (lembro que foi com esse livro que descobri o significado da palavra "sépia") de sua bisavó ainda pequena. Ela passa a tarde com o tal retrato colado à barriga, preso na cintura da calça, e acaba percebendo que pode se comunicar com a garota da foto.

Como se já não bastasse, passa a conversar também uma garota que vai ser sua bisneta no futuro. Da Editora Moderna.

"Raul da Ferrugem Azul", Ana Maria Machado
Esta mulher só pode ser uma fadinha! Juntos, o título anterior e esse venderam meio milhão de exemplares. Uma bela marca para as (boas) letras brasileiras, não?

Aqui, Raul percebe que está enferrujando, mas parece que ninguém da sua casa vê as manchas. Em busca de uma resposta para o mistério, ele descobre que deixar de fazer algo que você podia fazer pode trazer sérias conseqüências... Outra pérola que sabe combinar conteúdo e lições de moral sem pieguismo. Também da Editora Moderna.

"Bem do Seu Tamanho", Ana Maria Machado
Tia Ana, de novo (ai, como eu queria conhecer esta mulher!). Dessa vez, a menina Helena não entende qual é seu próprio tamanho, já que os adultos vivem dando respostas desencontradas sobre o tema.

Quando ela quer colinho da mãe, já está muito "grandinha para isso". Quando quer participar das conversas dos grandes, "ainda é muito pequena". (Quem não ouviu essas que atire a primeira pedra). Para desfazer o nó que se instaura na sua cabecinha, ela parte numa viagem junto a um boi de mamão e um garoto chamado Tipiti. Corre que ainda tem edição, da Moderna.


Amanhã, as traças róem mas a caravana não para. Os últimos quatro livros, estes já para a fase em que eu ainda brincava de playmobil e taco, mas também já corria as pestanas para os garotos bonitinhos da escola.

(Só olhava mesmo, como qualquer boa nerd, mas isso já é assunto para outro dia…)

Clara McFly às 05:48 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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